A Transição da Utopia para o Vale da Estranheza: O Impacto da Inteligência Artificial na Internet
A internet já foi vista como um espaço de liberdade e criatividade, onde a democratização do conhecimento florescia. No entanto, as promessas utópicas da era digital estão se desvanecendo, e o surgimento de novas tecnologias, como a Inteligência Artificial, está mudando essa dinâmica.
A Ideologia Californiana e Suas Contradições
A Ideologia Californiana, proposta por Barbrook e Cameron em 1995, sintetiza o individualismo libertário da contracultura dos anos 60 e o livre-mercado neoliberal. Inicialmente, essa combinação prometeu uma sociedade mais igualitária. Contudo, ignorou as desigualdades estruturais que moldam o acesso à informação, resultando em uma visão distorcida da liberdade.
A crença de que a tecnologia pode, por si só, criar uma sociedade mais justa falhou em reconhecer que a tecnologia, sem um propósito ético claro, apenas reforça as desigualdades preexistentes. Zuboff (2020) enfatiza que somos tratados como mercadorias, no âmbito do capitalismo de vigilância, onde nossa atenção e dados são explorados sem compaixão.
O Fenômeno da Degradação Algorítmica
O conceito de enshittification, introduzido por Cory Doctorow, descreve o ciclo de degradação das plataformas digitais. Inicialmente, essas plataformas oferecem serviços atraentes e gratuitos, mas, ao priorizar o lucro, elas acabam explorando seus usuários e se tornando inúteis.
Esse ciclo se apresenta em quatro etapas:
- As plataformas são boas para seus usuários;
- Começam a explorar usuários para beneficiar clientes corporativos;
- Após isso, exploram esses clientes para reter valor;
- Finalmente, se tornam uma “pilha de porcaria”.
Esse processo demonstra como o modelo de negócios centrado na exploração e no controle da atenção leva à saturação e ao desencanto dos usuários.
A Queda do Engajamento nas Redes Sociais
Dados recentes mostram que o tempo médio gasto nas redes sociais começou a decrescer, especialmente entre os jovens. O que antes era visto como uma oportunidade de sociabilidade agora se torna um espaço de consumismo passivo. As redes sociais, que serviam como plataformas de interação, agora são dominadas por influenciadores e conteúdo superficial.
As motivações para o uso das redes sociais mudaram drasticamente. Razões como “manter contato com amigos” e “compartilhar opiniões” caíram significativamente, enquanto o interesse em seguir celebridades e consumir conteúdo de entretenimento aumentou. Essa mudança sinaliza a transição de um espaço de conexão para um de espetáculo.
Sora e o Vale da Estranheza
Novas plataformas, como o Sora da OpenAI, representam um novo paradigma, onde a Inteligência Artificial gera vídeos a partir de texto. Isso não apenas transforma a maneira como interagimos com a tecnologia, mas também provoca uma sensação desconfortável, conhecida como o vale da estranheza. Essa experiência é caracterizada por um fascínio inquietante diante de representações que são convincentemente humanas, mas ao mesmo tempo, artificialmente inquietantes.
A simulação total promovida por plataformas como o Sora revela um abandono da realidade, ressuscitando dilemas éticos sobre a manipulação e a veracidade do conteúdo digital.
A Crise da Internet e o Que Vem a Seguir
A internet está passando por uma crise de maturidade que coincide com a erosão da confiança nas informações. O desafio daqui em diante é reconstruir um sistema digital que priorize a transparência e a redistribuição de poder, ao mesmo tempo que lida com o impacto das tecnologias emergentes de Inteligência Artificial.
A perspectiva futura pode ser menos global, mas talvez mais ética e humana, respondendo à sociedade cansada das promessas não cumpridas da era digital. A advertência de Dom Quixote ressoa: não confundamos mais moinhos de vento com promessas tecnológicas.
Referências
- Barbrook, R. & Cameron, A. (1995). The Californian Ideology. Mute.
- Doctorow, C. (2025). Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it. New York: Farrar, Straus and Giroux.
- Zuboff, S. (2020). A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
